sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A POESIA COMO ARMA DE REVOLTA


(Por Diego El Khouri)

“Poesia é a subversão do corpo”. Nada mais que essa sanguessuga chula de luvas de pelica. Baudelaire nos deu a receita. Olhos embriagados, cabelos em desalinho; a poesia contundente é aquela que absorve no ritmo e na forma uma maneira de contaminar o que já é sujo, ampliando a consciência para novos horizontes, abandonando o que não é sentimento para um movimento que seja apenas emoção, nada de razão.

A poesia sempre teve essa função (se é que tem alguma função) de destruir muros, quebrar tabus, sensibilizar a alma e ferir os inimigos. Assim podemos mudar a visão que se tem de arte – em vez de curar cutucar a ferida - . Desde os trovadores até os fesceninos foi assim. Quando os trovadores eram solicitados muitas pessoas acreditam que era para exaltar a mulher desejada. Mas não. Muitas vezes eram pagos para ridicularizar, satirizar, humilhar algum opositor ou coisa parecida. Por isso Octávio Paz está certo ao mencionar a frase que se encontra no começo desse ensaio. “ A poesia é a subversão do corpo” e o sexo uma válvula de escape fantástica.

Como um megalomaníaco-profeta o poeta se vê naufragado no abismo, um abismo sem volta, perdido e esquecido nos vãos da linguagem. Abstração e delírio. O caminho de Dante nos inframundos mas com as portas do paraíso fechadas. O poeta é um excluído por excelência, um amaldiçoado, entregue à mercê dos carrascos do universo. Dessa fibra que exalta a pele trazendo ao coração pitadas de volúpia e dor. Daí nasce o poema. Desse estado de marginalidade, ou seja, da indignação, resultada do vazio e da brutalidade do mundo pragmático e sobretudo hipócrita. O artista é um ser dilacerado entre os prazeres da carne e a vontade de elevar-se espiritualmente. Assim como o Fausto do Goethe. É um anjo decaído, um insatisfeito de marca maior.

Um bardo sem indignação é como um terrorista sem armas. Não há nenhuma diferença nesses dois lavradores. São todos destruidores. Porcos imundos de uma luxuosidade irônica e cadavérica. Sombras amarguradas de egoísmo e tédio. Passionais místicos, místicos passionais. Filósofos suicidas, rebentos de Nietzche. Palhaços que se mostram e se desnudam e se molestam em praça pública afim de que os demais se regogizem e lancem gargalhadas ao Todo, mostrando que a poesia é um circo de clowns bêbados e sem graça, superiores, medíocres. O terrorista e o poeta: seres de semelhança única, cada um vai desmoronando sua parte. Um no campo objetivo, outro no subjetivo. Porém aquele que verseja é superior. Ele destrói para vislumbrar algo, transcender, elevar a consciência, purificar, mesmo que seja pelas vias sexuais. Caminhar entre o lixo e o luxo. O sublime e o torpe. O carnal e o espiritual. Vivenciar a existência ao lado dos paradoxos.

A arte não constrói nada, apenas destrói matizes. Escrever desesperadamente, desenfreadamente ou perder-se no Nada, fechar os olhos, cessar a voz , o silêncio eterno... Rimbaud no auge dos seus vinte anos de idade abandonou a literatura para viver uma vida aventurosa, conturbada, selvagem e mística. A beleza enviesada e corcunda. A revolta nas artes e sobretudo na poesia é uma maneira de limpar a sujeira vivente, mesmo que seja apenas interior. Em vez de dar a outra face esbofetear o inimigo e cuspir caudalosos caldos de ironia e perversão. Transformar o que é podre em porções sublimes iluminando o mal da face da Terra. Livrar da humanidade todos aqueles que se opuserem as idéias atemporais propostas por Platão. Virtudes, amor, verdade. Eis o que desejamos. Eis o que queremos.

domingo, 25 de outubro de 2009

Ana Carolina (II)

(Diego El Khouri)

Perdeste o gosto da rola
quando abocanhas língua colérica.
São duas meninas; é correto afirmar
que a pele arde, que o desejo é nobre

o ventre forte, o gozo enorme.
São duas meninas (isso eu já sei).
Não se amam, não se querem, só se desejam
apertadas em um soneto plebeu

abocanhando clítores expostos
em camas de albergues fúnebres...
Estão alí, bem alí

rindo da minha cara, me chamando
de otário. São lindas, ainda mais quando
esporro na boca da primeira vadia.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Poema das 21 horas

(Jorginho A. Rocha)

Hoje,estou sozinho pensando,
sozinho acompanhando eu mesmo,
um copo de vinho pra mim e um pra mim também,
mas desculpa,não posso beber,
tenho um veneno pra tomar,
um veneno que vai me fazer bem,
e pensar que esperei por isso grande parte da minha vida,
agora vejo que estou sozinho,
eu sozinho comigo mesmo,
degustando mais dois comprimidos por noite,
escutando alguém falando de religião,
e cantando religião,
mas preocupado com o volume do microfone,
falando coisa com coisa,
é isso que eu não gosto,
acho que perdi um amor por isso,
meu pai escuta música,minha mãe vê televisão,
eu sinto meus lábios ressecados,
meus amigos estão na noite,se divertindo talvez,
e eu estou mais uma vez sozinho comigo mesmo.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Vasta noite


(Diego El Khouri)

Chego em casa a noite fatigado.
Ligo a televisão... nada vejo.
São apenas vozes e sexos que transparecem
no olho cego do desejo.

Depois de muita abobrinha
renego estupefato à toda mediocridade
que a mídia vem e nos reclama
e releio Rimbaud com o corpo em chamas.

Pronto. - invadimos madrugada a dentro
numa solitude inconformada.
E há muito pouco a fazer:

escrever um poema, um soneto
antes que a manhã venha
e destrua meu castelo de areia.
04,09,2007

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Sem título


(Diego El Khouri)

Luar cheio de estrelas, de estrelas cintilantes.
Corpo nu deflorado, mergulhado
Em gozo líquido de paixão.
Estrelas sexuais, flores e canções.

Bucetas rancorosas, choro contido.
A gargalhada que escapa toda vez
Que a tez branca encosta no falo
Chorando em desespero longe do abrigo.

Não existe Morte, Deus, Vazio.
Só meu pau na tua boca,
A risada frenética que não pára...

Educado numa escola neo platônica
Esqueço tudo, renego todos.
Resta apenas o orgasmo e o nosso sufoco.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Sem ouvido que escute

[Ivan Silva]
Gostaria de um prego
pra enterrar-lhe em minha mão
gritar e soltar os tímpanos
sem saber: quem o era ou não

Cerrados os lados dos lábios
pra não sair-lhe meio sangue
De toda cor já descorado,
Gritar pra ser descarado

Desmascarado se quer sem dor
"Revela o risco", que tenho com isso?!
enfincar e enfincar, varar!...

Pois é isso que acontece
traçar a mão de seu de repente:
ouvir o grito do próprio grito.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Lástima


Você andou e olhou, viu, um dejeto orgânico.
No chão parou , olhou e olhou de novo,
e olhou.Não era nada,
vendo que não era uma merda de algum cachorro,
lá-se foi uma pisada.
Já tive decepções, uma delas foi ter
bebido café sem açúcar, mais não sei
se essa foi a maior delas.
(Ivan Silva)